Design Thinking aliado a saúde

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Já há algum tempo venho participando de eventos científicos e tecnológicos, muitos deles relacionados à área da saúde. Em todos eles um tema que tem tido destaque é a inovação. Principalmente agora nessa época de pandemia, este tema foi amplamente discutido desde como fazer para lidar com essa situação inusitada até como tirar “proveito” dela – no sentido de extrair coisas boas de uma situação ruim, sem prejudicar aos demais.

Em função deste cenário, muitos de nós tivemos que aprender a trabalhar de casa, as empresas precisaram se adequar a este novo cenário e, principalmente o setor da saúde, teve que se adequar a esta nova situação, muitas vezes, fazendo uso de novos conceitos e tecnologias, que usualmente ainda estariam sendo avaliadas a sua utilização – como por exemplo a expansão do teleatendimento.

Muitas vezes, é devido a situações como estas que estamos passando, onde algo precisa ser feito para poder contornar possíveis situações insustentáveis, que a  inovação entre em campo. A inovação é uma das ferramentas que auxilia produtos evoluirem e processos serem melhorados.

Na área da saúde a inovação possibilita que os profissionais adquiram mais conhecimentos e recursos para melhorar o atendimento aos pacientes. Há alguns anos que a  inovação não vem somente de ideias, mas ela também vem a partir de processos bem estruturados, como o que vamos falar neste artigo: o Design Thinking.

Vamos começar falando sobre o que é a inovação para depois entrar em detalhes sobre a metodologia de Design Thinking.

O que é inovação

Antigamente, muitas pessoas acreditavam que inovar era incluir tecnologia dentro de um produto ou processo. Porém, ao longo dos anos, verificamos que, enquanto a tecnologia é uma das ferramentas que podem auxiliar na inovação, ela, por si só, não tem todo o louro de ser a inovação.

Considere um computador adicionado a um ambiente totalmente manual. A simples presença do computador em um espaço não inova as formas de trabalho — para tanto, ele deve ser incorporado a novas práticas (digitais), que exploram o que é possível fazer com um computador, mas não manualmente.

Assim, inovar é poder fazer algo de forma diferente, que facilite o dia-a-dia das pessoas, dos processos ou dos produtos. Nesse cenário, o Design Thinking ganhou espaço na inovação, pois é uma metodologia que nos auxilia a encontrar soluções inovadoras para os nossos problemas, utilizando o pensamento abdutivo e as ferramentas de cada uma das suas fases, centrando a solução no ser humano.

O processo de Design Thinking

Design Thinking é uma ferramenta oriunda da área de design e que foi adaptada a diversas áreas do conhecimento como uma ferramenta para auxiliar o processo de inovação. O Design Thinking teve origem em 1991, na empresa norte americana IDEO, na qual foi utilizado como metodologia na melhoria de produtos.

O Design Thinking, faz uso da forma de trabalhar e pensar dos designers, que buscam sempre propor algo que possibilite a melhor experiência do usuário. No processo de Design Thinking, buscam-se soluções pensadas em conjunto, com a participação de diversos tipos de profissionais, para, assim, propor ideias o mais diversificadas possíveis.

Assim, o Design Thinking é composto por 3 fases, basicamente: Imersão, Ideação e Prototipação. Abaixo, vamos falar de uma maneira resumida sobre estas etapas e, caso você tenha interesse em saber mais sobre o assunto, recomendo a leitura do artigo da minha colega, acessível neste link.

Imersão é a etapa em que os participantes (grupos de pessoas de diversas áreas, relacionadas ou não) do processo de Design Thinking, são apresentados ao problema a ser trabalhado. A partir da observação e análise do problema (em campo, quando possível), eles buscam descrever o seu contexto.

Essa observação do problema é feita levando em consideração tanto o ponto de vista do usuário final quando o da empresa que quer desenvolver a ideia. Dessa forma, a solução atenda às expectativas de ambos os lados.

Entre as fases de Imersão e Ideação, que serão descritas a seguir, existe uma etapa que se sobrepõe às duas: Análise e Síntese. Nesta fase as observações são reunidas e então analisadas para que seja feita uma síntese das ideias que vão continuar no processo.

Na fase de Ideação, são feitas reuniões de levantamento de ideias, nas quais os participantes do processo de Design Thinking são reunidos e discutem possíveis soluções para os problemas ou melhorias em discussão. A partir desta fase, muitas propostas de solução são levantadas, porém, só a melhor — considerando a solução proposta, custo e prazo — deve seguir para a próxima fase, a de prototipação.

Por fim, na Prototipação, é desenvolvido um protótipo para validar a solução proposta. O protótipo pode ser de alta fidelidade, com algumas mínimas funcionalidades já implementadas, ou de baixa fidelidade — com  menos detalhes, como um desenho ou uma execução manual.

O objetivo da prototipação é validar a solução proposta. Assim, o tipo de protótipo — de alta ou baixa fidelidade — está relacionado a qual aspecto da solução deve ser validado. A partir da análise e teste do protótipo, são identificadas melhorias a serem feitas no produto final.

Uma das vantagens dessa técnica é que é possível evitar implementações — que são, muitas vezes, caras — que não atendam às necessidades do problema. Com isso, é possível experimentar diversas soluções propostas, validá-las com o usuário e, somente quando elas estiverem atendendo melhor às necessidades, encaminhar a solução para a implementação final.

O Design Thinking  na saúde

Na área da saúde, o Design Thinking pode ser aplicado para melhorar a experiência dos pacientes e dos provedores da área da saúde — médicos, enfermeiros, terapeutas ou os próprios hospitais, clínicas, entre outros —, assim como melhorar os resultados clínicos e refinar os conhecimentos dos profissionais da área.

Vejamos alguns exemplos de Design Thinking aplicado na área da saúde:

Um dos casos mais conhecidos do emprego do Design Thinking na área da saúde é o caso da GE Healthcare. A GE Healthcare é uma das empresas mais inovadoras na área de diagnóstico por imagens no mundo.

A ressonância magnética foi uma das máquinas desenvolvidas pela GE. Ela seria perfeita se não fosse a forma como o exame precisa ser feito: a pessoa entra em um tubo escuro e barulhento e deve permanecer imóvel durante todo o procedimento. Se esta máquina pode ser, muitas vezes, desconfortável para um adulto, imagine para uma criança.

Foi nesse cenário que o Design Thinking entrou, buscando uma forma de amenizar o desconforto das crianças durante a realização do exame. Para isso, foram feitos estudos nos ambientes onde as crianças se sentiam à vontade e, a partir deles, foi proposta uma solução em que a máquina de ressonância era parte de um cenário que chamaram de “uma aventura na ilha pirata”. Com isso, a criança sentia o ambiente mais divertido e menos apavorante (veja a foto).

Segundo a avaliação feita após a solução proposta no Design Thinking, a melhoria na experiência dos exames realizados em crianças foi muito boa. Antes da solução, quase 80% dos exames realizados precisavam ser feitos com o uso de sedação e, após sua aplicação, essa taxa caiu drasticamente, em torno de 10%.

Fonte: https://ideiasesquecidas.com/2015/02/15/ressonancia-magnetica-divertida/

Um outro exemplo é o da rede de hospitais da Kaiser Permanente, nos Estados Unidos. Nesta rede de hospitais, um dos maiores problemas levantados era a quantidade de erros que eram cometidos durante a passagem de turno dos profissionais de enfermagem. Por diversos fatores, muitas vezes, algumas informações não eram repassadas e isso levava a diversos problemas, até mesmo a óbitos de pacientes.

A técnica do Design Thinking foi aplicada e resultou em algumas novas práticas, como:  passagem do boletim do paciente junto a ele; padronização da forma como é feita a passagem de turno; e rondas uma hora antes do fim do plantão. Observou-se que houve uma redução de até 50% nas falhas entre as trocas de turno.

Na Universidade da Califórnia, em São Francisco, pesquisadores analisaram a forma como os pacientes com esquizofrenia eram acompanhados durante o seu tratamento, a fim de avaliar por que, muitas vezes, o tratamento não era eficaz.

Basicamente, o tratamento destes pacientes é feito com medicamentos e terapia individual. Esse tipo de tratamento normalmente auxilia na melhora de sintomas como alucinação e paranoia. Porém, esta abordagem nem sempre auxilia na resolução de outros sintomas como ansiedade social, isolamento, falta de motivação e falha de memória.

Para resolver essa deficiência, o Design Thinking foi utilizado e, através dele, um aplicativo chamado PRIME (Personalized Real-Time Intervention For Motivational Enhancement) — cuja tradução seria Intervenção em Tempo Real Personalizada para Aprimoramento Motivacional — foi desenvolvido. O PRIME é uma plataforma que contém ferramentas para auxiliar, motivar e dar suporte aos pacientes, para que eles possam complementar o seu tratamento.

Por fim, um último exemplo de Design Thinking foi o aplicado ao auxílio na preparação de material educativo e informativo sobre a prevenção do câncer de mama. A maioria das campanhas sobre o tema, muitas vezes, remetiam as pacientes a um sentimento de morte ou a algo de conotação sexual, em função da utilização de imagens de seios de mulheres. Por conta disto, muitas vezes, as campanhas acabam tendo o efeito contrário à sua proposta original.

Nesse cenário, com o uso do Design Thinking, foi proposta uma campanha na qual foram utilizados limões para ilustrar sintomas associados ao câncer de mama que podem ser observadas durante um autoexame. A ideia de utilizar limões se deu por conta da sua forma externa ser semelhante à de um seio e sua forma interna ser semelhante à sua anatomia. Mais detalhes sobre esta solução pode ser encontrada aqui.

Fonte: https://www.knowyourlemons.com/

Conclusão

Neste artigo, buscamos falar um pouco de como podemos utilizar o Design Thinking, uma metodologia oriunda do design, como uma ferramenta para inovar e modernizar a área da saúde. Vimos, pelos exemplos, que ele é uma ótima ferramenta para a área da saúde, pois é centrado no ser humano, que é o usuário principal da área da saúde.

O Design Thinking mostra que inovação não significa a simples introdução de novas tecnologias em ambientes da área da saúde mas por outro lado também pode gerar  uma reestruturação completa de seus processos. Essa metodologia procura resolver problemas que já estão presentes na área da saúde, trazendo agilidade e melhorando o cuidado de pacientes.

Dessa forma, práticas simples — como deixar um ambiente mais amigável ou fazer troca de informação dos pacientes junto a ele — podem trazer muitos ganhos ao sistema de saúde como um todo, uma vez que podem reduzir erros (muitas vezes que levam à morte) e otimizar processos (muitas vezes, reduzindo custos desnecessários). Mais exemplos de aplicações desta metodologia na área podem ser encontradas em aqui.

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