Tecnologia Digital na produção de leite

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Tanto no Brasil quanto em outros países do mundo, o leite e seus derivados fazem parte da lista de alimentos mais consumidos pela população. Segundo a FAO (The United Nations Food and Agriculture Organization ou Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), o Brasil está entre os cinco maiores produtores de leite do mundo e tem o segundo maior rebanho leiteiro do mundo — cerca de 70 milhões de animais, incluindo vacas, novilhas, bezerras e touros.

O leite está entre os seis primeiros produtos mais importantes da agropecuária brasileira e uma das cadeias que mais emprega brasileiros. Atualmente, cerca de 20 milhões de pessoas trabalham na cadeia de produção do leite, envolvidas desde o setor primário (que inclui a produção agrícola propriamente dita e a operação de fazendas) até a entrega, transformação do leite em laticínios, transporte e comercialização ao consumidor final.

O objetivo deste texto é descrever as tecnologias já disponíveis de forma a melhorar a produção de leite de qualidade e pensar em outras soluções tecnológicas que podem auxiliar na produção do leite.

Qual a importância da tecnologia nas granjas leiteiras?

Já existem, inclusive no Brasil, granjas leiteiras que utilizam das mais recentes inovações tecnológicas no campo — tais como ordenha completamente automatizada e consequente geração de grande quantidade de dados online.

Com os dados atualizados é possível, por exemplo, utilizar os algoritmos de inteligência artificial para extrair informações — como o melhor tipo de alimentação ou mesmo os melhores intervalos de coleta de leite.

Porém, nem todos os produtores de leite conseguem tirar proveito das tecnologias atualmente disponíveis para diferentes etapas do processo como ordenha, refrigeração do produto entre outras.

Por exemplo, a ordenha manual gera um leite com maior quantidade de microorganismos e impurezas, por mais higiênico que seja o tratamento. O fato é que existe uma tendência de tecnificação na produção de leite, utilizando-se cada vez menos da mão-de-obra humana em contato com o animal e implementando tecnologias para ajudar no aumento de qualidade do produto e bem-estar animal.

Classificação dos tipos de leite

A fim de entender qual a importância da tecnologia de forma a se obter melhores produções e também um leite de melhor qualidade, entendo que seja importante termos uma breve noção dos tipos de leite de vaca disponíveis no mercado.

  • Leites UHT (Ultra High Temperature)

Estes leites, também chamados de leite longa vida, referem-se ao tipo de leite que passa por um processo de superaquecimento, de modo a eliminar a sua carga bacteriana. Geralmente, são envasados em caixinhas.

  • Leites pasteurizados

Os leites de vaca pasteurizados são aqueles conhecidos por serem comercializados em geladeiras ou “in natura”. Os leites pasteurizados passam por um processo de choque térmico a fim de minimizar a concentração de bactérias e possuem um tempo de vida menor que os leites UHT.

Os leites pasteurizados podem ser subdivididos em:

  • Leite Tipo A – Apresenta menor concentração de microrganismos por ml (máximo de 500/ml). A origem do leite tipo A requer que a ordenha seja feita apenas de um rebanho e não pode haver contato manual em nenhuma etapa da produção.
  • Leite Tipo B – Pode apresentar um volume maior de microrganismos por ml (limite de 40000/ml) e pode ser colhido de rebanhos diferentes. A ordenha pode ser mecânica ou manual, sempre respeitando o limite do volume bacteriano permitido. Pode aguardar por até 48 hs em ambiente refrigerado, antes de ser pasteurizado.
  • Leite Tipo C – Pode apresentar um volume maior de microrganismos por ml (limite de 100000/ml). Normalmente, ainda é feito com ordenha manual, sendo que a diferença com o tipo B é que ele não passa por processo de refrigeração após coleta. Após a ordenha, já deve ser transportado imediatamente ao laticínio onde será pasteurizado.

Quanto maior a qualidade do leite, melhor tende a ser a sua remuneração e procura. Levando em consideração os critérios comentados a cima, o leite Tipo A normalmente é o mais buscado pelo público consumidor residencial por conta do seu melhor valor nutricional e menor quantidade de microrganismos indesejáveis.

Outro ponto em que existe a valorização do leite de melhor qualidade refere-se ao leite entregue aos laticínios, visando a fabricação de derivados. Existem algumas iniciativas do setor de laticínios que visam remunerar a produção de leite em relação à qualidade do produto — considerando critérios como teor de gordura, teor de proteína, contagem de células somáticas (higiene) e contagem bacteriana.

Isso quer dizer que há demanda por leite de alta qualidade — Tipo A, por exemplo — tanto pelo consumidor residencial quanto por outros setores, como o de laticínios, que utilizam o leite como matéria prima. Para atender a esta demanda, produtores precisam encontrar formas de elevar a qualidade de sua produção.

Nesse cenário, a introdução de tecnologias digitais na cadeia de produção do leite é parte essencial desse processo de aumento da qualidade do leite produzido no Brasil.

Uso da tecnologia digital na produção leiteira

A utilização da tecnologia na produção de leite já é bastante aplicada em granjas leiteiras mais avançadas. Em pouco tempo, os agricultores que não adotarem uma produção mais tecnificada tendem a sumir do mercado, visto que o próprio consumidor tem procurado por produto de maior qualidade

Por isso, abaixo, listamos algumas das tecnologias disponíveis e possibilidades futuras que possam agregar valor à produção de leite.

  • Robôs

Pela própria definição do leite tipo A, vemos que existe a necessidade de que não haja nenhum tipo de contato manual na produção. Robôs ou máquinas ordenhadeiras são, provavelmente, a aplicação de robôs mais conhecida na indústria láctea.

A utilização de robôs permite a ordenha de muitas vacas simultaneamente. Ao mesmo tempo, a ordenha mecanizada facilita a manutenção da limpeza e sanitização do ambiente. Desta forma, máquinas ordenhadeiras ajudam a garantir melhor qualidade do leite extraído, sem o contato manual, reduzindo a contaminação do leite extraído.

Outro benefício é que estes robôs podem atuar 24 horas por dia. Em alguns casos, é possível realizar a ordenha por demanda (o animal procura as ordenhadeiras quando acha necessário) ou no momento que o animal deseja se alimentar.

Além disso, automatizar o processo de coleta de leite permite que o ambiente da granja leiteira seja mais calmo — com menos pessoas no espaço —, o que favorece a tranquilidade e produtividade dos animais.

  • Sensores/IoT (Internet das Coisas)

IoT (Internet of Things), a Internet das Coisas, é uma rede composta de objetos que podem coletar e compartilhar informações entre si. Estes objetos podem ser qualquer coisa, desde simples lâmpadas a máquinas inteiras. A ideia é que eles possam se comunicar uns com os outros, compartilhando dados e enviando sinais.

Já existem no mercado monitores vestíveis que podem ser pendurados na orelha, pescoço, pernas ou mesmo no rabo das vacas. Esse dispositivo permite o monitoramento individual e do rebanho (estado de saúde e nutricional dos animais) de modo instantâneo, permitindo que se tomem as medidas necessárias de maneira proativa.

Assim, sensores podem avaliar gordura, proteínas e presença de antibióticos (não é permitido que se tenha traços de antibióticos no leite in natura) no leite extraído. A partir destas informações, os produtores podem atuar para melhorar a saúde de animais de forma individualizada.

  • Inteligência Artificial

A Inteligência Artificial (IA) consiste em mecanismos computacionais que se baseiam no comportamento humano para resolver problemas. Em outras palavras, a tecnologia faz o computador “pensar” como uma pessoa para executar tarefas. Nós, humanos, somos capazes de analisar dados, encontrar padrões ou tendências neles, de fazer análises mais apuradas e, a partir delas, utilizar as conclusões para tomar decisões. De certo modo, IA segue esse mesmo princípio.

No caso das granjas leiteiras, podemos utilizar IA em câmeras para identificar objetos. Essas câmeras ficam distribuídas em todo o celeiro e são capazes de detectar o momento em que a ração se torna insuficiente ou indisponível. A partir dessa informação, as câmeras, conectadas ao sistema da granja, ativam mecanismos que liberam ração ao gado.

Eventualmente, estas câmeras também podem ser utilizadas para rastrear os animais. Neste caso, elas eliminam a necessidade de dispositivos de rastreamento como colares e tags, servindo de alerta aos produtores com relação a comportamentos inesperados dos animais (como fugas, problemas de bem-estar animal, entre outros).

  • Aprendizado de Máquina

O Machine Learning (ML, Aprendizado de Máquinas) é parte da inteligência artificial. Com ele, é possível treinar computadores para determinar padrões e tendências entre os dados para suprir ferramentas para tomada de decisão. Por exemplo, em termos de imagens, é possível gerar mecanismos em que o algoritmo consiga detectar com um grau de precisão quando existe a presença de alguma doença (necessário o cientista de dados, mas também alguém que consiga identificar pela imagem se a doença existe ou não).

Baseado neste conhecimento de aprendizado de máquina, a empresa EIO Diagnostics trabalha em um projeto que combina o aprendizado de máquina com utilização de imagens multi-espectrais.

Animais com mastite — uma doença muito perigosa e prejudicial ao animal e à indústria leiteira — apresentam padrões de inchaço e calor em seu úbere. Com o projeto da empresa, é possível analisar imagens do gado e identificar casos suspeitos de mastite, antecipando a detecção e o diagnóstico e tratamento da mastite.

Tecnologias como estas, permitem uma análise diária e um alerta do problema com bastante antecedência, evitando problemas na produção e também evitando o alastramento da doença.

  • Realidade virtual

A tecnologia da realidade virtual é a simulação de um ambiente real com o uso de equipamentos eletrônicos. Através desses equipamentos, o usuário pode fazer uma imersão na simulação e, através de sensores, interagir com o ambiente.

No Canadá, já existe uma cooperativa de laticínios que utiliza a realidade virtual para treinamento de funcionários em ambientes de granjas leiteiras. Os empregados podem aprender a identificar potenciais problemas ou simular situações problemáticas em uma granja sem causar danos reais à produção. Ou seja, seria quase como se fosse um jogo(game), onde os funcionários poderiam interagir e saber quais atitudes devem ser tomadas. Por exemplo, qual seria o procedimento do funcionário caso o extrator de leite apresentar problema, ou mesmo simular como se deveria interagir com o animal no caso de resistência ao tratamento periódico, como aplicação de algum medicamento.

  • Blockchain

O termo tecnológico do Blockchain descreve uma corrente de blocos. Cada um desses blocos (blocks) contém as informações sobre um evento. Os blocos são conectados em ordem cronológica, formando uma corrente (chain). Para alterar a informação em um dos blocos, é necessário alterar todos os blocos anteriores. De fato, Blockchain é, muitas vezes, comparado a um livro de razão, em que os dados e seu histórico se tornam praticamente imutáveis. Essa caraterística torna Blockchain uma tecnologia interessante para manter a segurança de informações.

Nos dias de hoje, em que os consumidores demonstram cada vez mais interesse em acompanhar a origem dos alimentos que consomem, a Blockchain permite conectar todos os detalhes da cadeia de produção até a chegada ao consumidor. Rastreio da origem do leite, a maneira como ele foi produzido, os medicamentos utilizados na produção, as medidas de higiene executadas na extração do produto e muitas outras informações podem ser disponibilizadas aos clientes finais través de um Blockchain que documente todas as etapas da produção.

Conclusão

A transformação digital do campo está em andamento e o setor de laticínios já apresenta muitas das soluções tecnológicas disponíveis a serem utilizadas também no campo.

Granjas leiteiras mais modernas já podem ser conduzidas com pouca intervenção humana nas diferentes fases do processo. A tecnologia digital permite trazer informações atualizadas e instantâneas sobre os animais e o estado da granja leiteira, além de permitir tomar ações preditivas em busca de uma melhor produtividade e qualidade.

As mudanças tecnológicas estão acontecendo rapidamente no campo e caminham para uma aceleração ainda maior nos próximos anos. Capturar dados individuais das vacas e permitir aos produtores acesso direto, não apenas aos dados atuais, mas aos dados históricos do seu rebanho vai permitir que os produtores avancem cada vez mais no desenvolvimento da produção leiteira. Por isso, os produtores que souberem utilizar as tecnologias de forma inteligente na sua produção serão os mais beneficiados.

O Venturus trabalha com as tecnologias disruptivas da tecnologia ao mesmo tempo que acompanha os avanços no campo a fim de se alinhar cada vez mais às tecnologias do campo. As inovações utilizadas nas granjas leiteiras servem de inspiração a atuar cada vez com maior intensidade na revolução digital do campo.

 

 

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